domingo, 5 de junho de 2011

Vedete


                                             
                                                           
Produto das minhas inspirações                    
funda-se na angustia reciclavel do meu ser.
 
          Clama esta minha alma,
           enquanto meu corpo se recente dela não ser em si,
           bem mais que uma efemera substancia.

                      Vedete de cassinos proscritos no anonimato perfeito.
                        Joga xadrez com o desejo chamegante
                               
              Flutuado  em vales sinuosos de matéria Curvilínea . 
                                     Entranheis meu ser e sê feliz.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O VELORIO




Parte I – A Luta Num tempo não muito longínquo, num Lugar próximo demais, em um dia como outro qualquer, morreu silenciosamente o sentimento mais puro daquela mulher. Antes do trágico fim, um luta fatídica foi travada. De um lado, A Mulher com todos os seus sentimentos em seu punho cerrado, do outro a “A Besta”. A Mulher guerreou, como a mais brava das guerreiras, a verdade foi sua Foice, e cortava tudo que não tinha importância, a Doçura foi seu escudo, a beleza sua estratégia, a paixão sua determinação. Muito sangue verteu de seu peito, quanto mais a jovem menina lutava, mais “A Besta” lhe machucava, porem a menina tinha pulsando em seu peito a rainha “Sua majestade a Inocência”, e em sua soberania a Rainha gritava “não acreditas que algo possa ser mais forte do que o amor? Siga em sua obstinação e sofra a sua as conseqüências ”. Assim a Menina com a coragem que habita as grandes Mulheres, desceu ao inferno, alimentou o diabo, retornou a superfície e entregou-se “A Besta”.



Parte II – O Estupro

Triunfante o ser irracional deitou-a na terra e por suas entranhas arrancou-lhe o coração, e em sua mendicância o engoliu inteiro.



Parte III - O Velório

A sala estava cheia, muitos não Conseguiam entrar, os gemidos que vinham de lá, causavam calafrios, eram gritos de Dor Rasgados , de Fome e desespero e ausência. Ilustres sentimentos Velavam o caixão. Ao lado esquerdo onde existia o coração, estava a inocência apática, transparente, esvaindo-se quase invisível, com as mãos em seus ombros a solidão oferecia conforto e desapego, convidando-a a partir.... No fundo da sala, a Ira isolada de todos, tornava-se fogo e queimava um cigarro da marca “Vingança”. A alegria tinha sua tez amarela e o gozo de sua presença não era notado, apesar de jorrar sobre o caixão, que transbordava O Nada. O barulho que ecoava desse movimento, ensurdecia a todos eram ecos, projeteis viciosos do inconformismo. A revolta do lado de fora , forçava a entrada, debatia-se insana e com tamanha intensidade, que fazia a terra tremer. Aos pés do caixão, numa cadeira vazia , surgiam os ruídos de maior expressão , tamanho era o desespero que aquele fantasma sentia , mas todos o entendiam pois ali, a Esperança derramava lagrimas de sangue inundando lentamente o vazio. O Medo , transitava entre todos, com uma calma inadequada e repugnante, beijou a tristeza, que olhava para todos com muita serenidade , parecia que ela sabia de algo que todos desconheciam, ela conversava atentamente com a Razão .


Parte IV – O Enterro A Razão , vestida de branco , enchia de pontos de luz o lugar. Foi Ela a Razão que fechou o caixão e foi ela que enterrou o Passado, e foi ela também que destruiu “A Besta”.

Num tempo de muita dor.


OBS:

Direitos autorais preservados pela autora:

Alba Regina Bonotto
(Imagem de Luis Royo)

sexta-feira, 4 de março de 2011

SINAL




Ha muito minha vida andava resumida a lidar com a rotina de uma união fracassada, onde o sexo era a única coisa que atenuava a insuportabilidade do cotidiano histérico.

A beleza era minha dona e promovia encantamento, o que me valia alguns momentos de diversão, quando na rua sentia a cobiça em olhares carregados de brilho e urgência.



Tinha muita vontade de transgredir, de viver aventuras, de descobrir outra forma de amor e de prazer, não podia ficar refém daquele mundo perverso e limitador que corroia minha alma.

Enquanto em casa recebia desprezo e maus tratos amorosos, na rua me sentia uma rainha, colecionava suspiros e olhares invasores ,um suave sabor de vingança enchia minha pele de mel.



Adorava pegar minha bicicleta empinar meu bum e sair pela cidadezinha, colhendo paixões platônicas. Não foram poucas as vezes que via mulheres beliscando seus parceiros boquiabertos com minha presença, eu adorava encantá-los, sempre vi olhar masculino como uma forma de inclusão.



Era final da primavera, leva as crianças para escola e no caminho de volta notava que era ciceroneada por um jovem playboy que mudava de carro toda hora, demorei meses para perceber que o gatinho da moto que me rondava era o mesmo do golf e o mesmo da Pajero.

Não falava nada, apenas desacelerava o carro quando chegava perto de mim. Era lindo , ombros largos , pele clara,cabelos dourados,olhos verdes,difícil de resistir...

Depois de alguns meses ficava ansiosa por aqueles momentos, saia sempre na mesma hora para que ele pudesse passar por mim, ele não falhava .. com o tempo comecei a sorrir e ele sorria de volta e seu sorriso era extremamente encantador, me surpreendia o fato de ele não parar não tentar uma cantada, era novo, divertido e delicadamente invasor...

Chegou o inverno e meu charmoso admirador ,continuava a me seguir pelo bosque, até que um dia ele jogou uma rosa, nela preso um bilhete:

“Hoje faz seis meses que meus olhos se apaixonaram por tua imagem, seis meses em que os sonhos me fazem dormir o melhor dos sonos. Desejo acordar .... à tardinha, quando for ao mercado ,me de apenas um sinal e irei te capturar . Ass. HF”
Definitivamente estava completamente refem de sua beleza e misterio, armadilhada pela curiosidade, pelo romantismo, a atração era imensa não podia mais suportar, precisava de paz...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Loba e o Coelho Branco

- Coelho Branco: Duvido você me alcançar na corrida.
- Lobinha: Hummmm... posso voar?
- Coelho Branco: Mas você só me pega uma vez no chão...
- Lobinha: É o que basta para minhas garras...
-Coelho Branco: E se eu entrar na toca... Irá desistir da caçada?...
- Lobinha: Ficarei a espreita..
.- Coelho Branco: rsrsrs...
- Lobinha: Estou à espreita..
- Coelho Branco: Vou encarar você... Vejo nos seus olhos que é uma boa loba. Podemos ser os amigos mais excêntricos da floresta
- Lobinha: Coelhos temem meu olhar predador, meus instinto perspicaz,minha fome aleatória.
- Coelho Branco: Se você me comer, como a levarei ao mundo fantástico?
- Lobinha: Seria um encontro que... escandalizaria a bicharada ... sim eu quero seguir o coelho branco...
- Coelho Branco: Então tenho que domesticá-la para conduzi-la até lá. Pode apostar que é lindo esse mundo...
- Lobinha: ira me adicionar a uma incubadora? Precisaria entrar na incubadora? Uma lobinha, Voraz num mundo fantástico, vale a pena, estou pronta, apenas preciso saber se haverá volta?
- Coelho Branco: Você será livre, mas ficará tão encantada que vai recusar voltar...
- Lobinha: Conduza-me o encantamento, terás enfim vencido a natureza que não nos permite esta aproximação...
- Coelho Branco: O mundo continuará existindo, mas o jardim onde você pisará será forrado por pétalas de rosas. A maciez do ambiente demoverá seu coração selvagem, e o amor nascerá desta união formosa e exótica.
- Lobinha: Minhas patinhas num jardim encantado por pétalas de rosas? Meus caninos saboreando a maciez de uma existência plena. e o amor brotando livremente rompendo todos os limites temporais , literais...hummm começo a visualizar o portal....
- Coelho Branco: Sim, segure minha mão. Não temas mais. Lá encontrará o conforto e a beleza. Será transformada em princesa e o mundo se ajoelhará diante sua majestade. Será temida devido a sua natureza e sábia, uma rainha perfeita
- Lobinha: teu olhar astuto, tua mente inquietante, tua rapidez em sentir, estará presente, eis a isca, que me conduz...
- Coelho Branco: durante seu reinado sempre estarei ao seu lado... Conduzirei exércitos para manter o belo mundo que criamos.
- Lobinha: Isso fará diferença ao mundo dos mais atentos que verão nesta escolha a inspiração para grandes movimentos, e o amor que brotara deste feito validará nossa existência, e nos tornaremos cúmplices na imortalidade...
- Coelho Branco: Sim, seremos soberanos da nossa própria existência. Uma vida é pouca para nos amarmos plenamente. Enquanto isso serão obrigados a compor fortalezas para proteger nosso amor e o reino
- Lobinha: Usarei todo vigor de minha espécie, e toda a frieza que me mascara, para lapidar as muralhas deste mundo, e dar a ti a verdade sensível e apocalíptica da minha alma selvagem... Como suportará minha intensidade?
- Coelho Branco: Será minha, pra sempre. Irei compor os mais lindos versos ao pé do seu ouvido e darei condições para que a sua natureza se desenvolva plenamente em meus domínios. Sua intensidade irei aplacar com as defesas naturais do amor
- Lobinha: hidratarei seu corpo e saciarei tua sede, e beberei sua dor, neste mundo que me ofertas, serei tua mais incrível e apaixonada obra... tua, para sempre.
- Coelho Branco: isso despertará inveja dos deuses, pois nem eles conhecem tão grandioso amor que nos une.
- Lobinha: Eles serão implacáveis... sentirão em suas forças mais devastadoras, a impotência diante de algo tão espetacular,um amor apoteótico aos céus e indimencionavel aos mortais...
-Coelho Branco: recorreremos aos titãs. Eles serão nossos aliados nesta batalha celestial. Devemos superar todos os conceitos de amor e beleza, seremos seres supremos numa terra de homens e mulheres que nunca conhecerão o amor selvagem, natural, pleno, puro, que é o nosso. Todas as manhãs, direi que a amo e beijarei sua mão.
- Lobinha: Ao teu beijo matinal, sortearei a beleza reencontrada e lapida entre sorrisos e caricias supremas... dedicarei todos meus movimentos até o infinito de nossos dias para expurgar todos o estereótipos que nos contaminam,para esculpir dia a dia o encontro supremo da perfeição física e sensível...
- Coelho Branco: tornaremos-nos deuses. O nosso casal de filhos pertencerá a uma nova etapa evolutiva
- Lobinha: seriam mesmo possíveis, filhos da Loba com o Coelho Branco?...Conta-me como seriam estes seres tão singulares?
- Coelho Branco: e assim estarei realizado. Impedirei q o mundo acabe, pois o jardim mais belo que os da babilônia deverão ficar em pé para mostrar a eloqüência na nossa interação.
- Lobinha: Construiremos um novo ser. Coelho Branco: da mãe e aterão a natureza racionalidade do pai. Lobinha: mais forte, mais belo, mais possível, mais pertencente uma natureza valida.
- Coelho Branco: sim, um ser com a nossa semelhança.
- Lobinha: um ser que perpetuará um novo tempo, uma possibilidade atemporal...
- Coelho Branco: uma nova era. A raça do homem estará já em declínio, reinaremos soberanos.
- Lobinha: nas entranhas dessa obra,serão tão perfeitos que irão ser capazes de procriar a totalidade do que somos e do amor que sentimos, e renasceremos E renascidos seremos ainda mais exóticos e desafiadores, pondo a prova constantemente a prevenção para reinventá-la...
- Coelho Branco: a nossa casta. Uma linhagem como se nunca viu. Terão o amor, a sabedoria, e em épocas de guerra, a força e a selvageria de um ser até então, inconcebido, nossos passeios pelo jardim serão de uma candura impermeável. Seu perfume me envolverá, seu hálito percorrerá meu corpo e me sentirei revigorado. A cada beijo uma nova experiência.
- Lobinha: a fonte da força vital será inesgotável, devido ao solo que a verte, o medo e a culpa serão banidos da existência, a morte não será à sombra de nossos movimentos, o fim perderá o conceito, as possibilidades serão infinitas. seres tão motivados e plenos que até o céu fará uma cascata com caminhos interplanetários... E os gostos dos beijos que te darei fortuitamente, não terão padrão nem significados de associação, por que terão sabores cósmicos e canduras férteis...
- Coelho Branco: fantástico. Não pararei de amá-la nem em sonhos. Aliás, nossa sabedoria e adaptação, farão realidade e sonhos muito próximos. A amarei em terras longínquas, sob o olhar de estrelas tão arcanas quanto à existência do universo.
- Lobinha: minha língua será dependente de tua pele, do néctar de teu suor, da excitação de tua inteligência, devorarei seus gemidos. sempre ao luar de todas as horas... em toda manhã teu banho será supremo e como convêm às lobas será com minhas linguadas... - Coelho Branco: não haverá adjetivos ou definições plausíveis para caracterizar o que somos e o que sentimos um pelo outro. Viverei pra e por você. Recompensarei seu carinho com o meu toque mágico pelo seu corpo delineado por uma natureza subliminar. Cada pedacinho do seu corpo será tocado e amado. Todos os dias, como se eu fosse feito e condicionado a ser seu eternamente.
- Lobinha: o mundo dos simbolismos, não aplacara ou contentará nossa certeza e nossa infinita paixão. não haverá outra possibilidade alem de nossas caricias, que apenas tocarão com suavidade a grandeza que este sentimento possui... Seremos sempre famintos um do outro...
- Coelho Branco: eu te amo! Lobinha: você é o único amor que possuo o único amor que existe e é possível existir em mim.

Branco Coelho e Lobinha.

OBS. Eles se encontraram uma única vez e construíram um mundo de verdade. Consegui autorização da Lobinha para Publicar este encontro . Alba Regina Bonotto

domingo, 10 de outubro de 2010

INTERLÚDIO


Automaticamente apertei no térreo.
-O elevador desce em uma velocidade anormal, parecia que entrava numa
câmara gravitacional. Uma sensação estranha me assola, o tempo parece
estar em câmara lenta. Percebo, pelo visor de andares, que passei pelo
térreo, meu coração acelera, novos andares surgem e o painel
eletrônico indica: I grau, II grau, III GRAU.
-Em cada andar via-se o espaço de uma pequena cela, nelas as imagens
nítidas de pessoas sendo castigadas. Prisioneiras em uma espécie de
limbo em outra dimensão. Cada andar um torturador diferente e
impiedoso. Prisioneiros penitentes, no olhar a malignidade esculpida em
suas caras de dor, como se o castigo não alterasse a essência perversa
em suas faces disformes. Cada corte ou machucado, tornava-os mais
vigorosos. Gritos de dor aguda lembravam animais no abatedouro. Eram
lobos sedentos de sangue de outros  lobos, eram os punidores.
-A tortura parecia demoníaca, alguns tinham a cabeça espetada por
agulhas extremamente finas, que perfuravam a pupila deslizando cérebro
adentro e neste percurso molestavam perversamente a massa cinzenta,
fazendo orifícios profundos, microscópicos quase invisíveis a olhos
nus. Todos estavam sendo escalpelados por crianças molestadas,
destruídas pela magoa com suas faces em forma de totem. O castigo
variava conforme a descida para cada andar uma pena, um grau de
castigo. Havia os que estavam sendo embrulhados em cubos que faziam
alusão a lapides de gelo. Tremiam imóveis diante de uma lareira que
prometia aconchego com suaves labaredas de fogo que consumiam o ar.

-Ambos, gelo e o fogo, prometendo a morte lenta e inconsolável. Havia
outros recebendo pequenas chicotadas nos olhos. A estocada era
sistemática e constante sobre a pele, nela abriam-se fendas de
sangue. O chicote seguia tocando como gotas que ressoam
incansavelmente na noite gelada. Pessoas sendo pregadas na parede, o
ritual repetia-se a cada andar.
Minha cabeça tenta achar explicação para tudo que via:
-Porque estou entrando nesta rota, nesta queda?
Não achava resposta clara a não ser por ridículas lembranças de
pequenos delitos. A palavra Culpada ressoava dentro da minha mente:
Estou sendo sentenciada a sanar minhas culpas?
Serei eu culpada de algo tão terrível, merecerei um destino tão duro,
entre estes pobres diabos?
 -Nada além de uma percepção de culpa vem à mente e a realidade foge ao
meu entendimento, escapa como se tivesse irremediavelmente perdido a
sanidade.
- Num instante, sou merecedora deste desígnio, todas as justificativas
somem, não sou mais capaz de saber, talvez algo tenha me escapado.
Efetivamente nem um dado concreto, o que existe são minhas percepções,
por mais que busque discernimento nada é maior do que a realidade maligna
 apropriando - se da minha existência. 
A situação bizarra não justifica aquele portal
abrindo na descida tétrica do elevador. Estava obrigada a testemunhar
tais barbáries, a idéia certeira de que falhei, por não ter superado
os limites de uma consciência que jamais fora minha tatuava-me,
deformando minha casa meu corpo meu espírito, de tal forma que em
muitos momentos não me reconhecia diante do espelho.
- É incrível como passamos a vida em busca de algo que nos foi vedado
ao nascer. É quase uma maldição, já que nos primórdios de nossa
existência somos dependentes, sujeitos aos cuidados e afetos de outrem. Essa
sujeição absoluta nos torna reféns submissos e pulcionados pelo outro, amparado de
uma insustentável ilusão.
- A verdade é o maior carrasco nesta descida e me imputa o tempo
perdido. Um pensamento aterrorizante me invade, toma conta: “não há
mais tempo nem chances para acertar as dividas contraídas sobre as
postergações que me impus. Sonhos aplacados no tempo, habilidades que
transbordavam em solos inférteis, ooh! minha mente ateia descrê na
queda.
- Meus delitos são reais, existem dentro da mente, salvaguardados por
um ego implantado, sujeito das tramas da cultura, responsabiliza-se
pela a extorsão da dor, da finitude.
-A pena, por desejar escapar das missões culturais, cravejadas em meu
ser é a solidão. A dor é gigantesca, porém me faz existir mesmo ali,
naquela realidade ameaçadora de morte eminente. A descida abre os portais,as
percepções da mente e apesar dos antagônicos sentimentos, a cada
minuto aproprio-me de um poder inenarrável como se estivesse neste
caminho sendo contagiada por forças invencíveis.
-Acaso estou no purgatório, por crimes executados contra meus sonhos?
Então seria isso mesmo? Estou sendo condenada pelo o que não permiti a
mim mesma? A postergação infinita ao que aspiro e que verdadeiramente
inspira o amor e a vida dentro de mim, surge como se um minúsculo
relógio de areia estivesse contando os últimos minutos para uma
escolha efetiva, de uma nova forma de conduzir meu eu.  A areia deste
relógio se move com uma urgência apavorante.
- Preciso pensar, não posso ficar presa aos segundos perversos do
relógio. Satisfazia nutrir-me com alguns flashes da vida. Escolher
meus caminhos, aceitar a dor sempre pareceu mais simples e
irremediável, desde que eu não tivesse que carregar a culpa de
infringir esta dor aos que estimava. Agora percebo que este
comportamento mantinha minha evolução em câmera lenta, não andava sem
preparar as trilhas para carregar comigo as ilusões de estar sempre em
tempo na busca do outro jamais encontrado, de tentar manter-me em um
nível que não mais sustentava meu ser. Mas existiria realmente algo
além da ilusão? Tudo que existe precisa ter registro em alguma
deslocada forma de sentir e perceber desejos e pensamentos. Neste
ponto, esse existir pode superar a realidade e a inviabilidade de
manutenção básica da vida,seria então essa uma forma de desamparo estruturante?
-Negligenciar este ponto teria me remetido a  um jogo de azar onde
romanticamente apostaria em meus sonhos e se acertasse encontraria a
gloria e nela todas as outras alegrias e todas as desilusões que só
guerreiros que contam seus mortos conhecem.
-Não! Minha vida não esta numa banca de apostas, ela sempre esteve em
minhas mãos. Esta racionalidade não resolve o fato de estar trancada
neste elevador e isto é tragicamente assustador, meu estômago se
embrulha. A sanidade do mundo tangível de nada serve para estancar
a literalidade desta consciência de inferno.
-Seria então vaidade ter suportado tantas limitações, ser forte o
bastante ,para me manter em segundo plano por longos anos para
perseverar o encontro, mesmo que tardio ,daquilo que me era mais caro e
precioso?
-Minha mente parece estar em declínio, ela está tateando o elevador como
se este estivesse a seu serviço. Seria esta a engrenagem que
sinalizava o caminho?
É incrível como a culpa se manifesta , inflama e nos deforma. Sempre
em nós, há um crime que tememos ser desvendado, são crimes de
inconsciência que na maioria das vezes existem em pesadelos e o mais
longe que chegam representam apenas faíscas de uma torpe lucidez. Os
sentimos reais e nos julgamos culpados. O pior é que nós mesmos nos
sentenciamos, e nos tornamos carrascos infalíveis desta breve e
inconstante existência, isto sem que tenhamos a menor consciência do
que fazemos . Fortalecemos um Eu carrasco de si e por si, autômato e
incorruptível. Este é o estigma a compor a nobreza de ser um ser?
Não! Não! Não! Isso definitivamente não faz sentido. Começo a apertar
todos os comandos, tentativa inútil de deter o elevador.



Inexplicavelmente meu corpo todo paralisa, não consigo coordenar meus movimentos. O elevador pára subitamente em um andar destacado por uma ofuscante luz azul. Através dela posso ver uma sombra, ela vem em minha direção, continuo paralisada, quando percebo já está ao meu lado.

Posso sentir o calor que emana, seu corpo exala um suor almiscarado como se uma floresta inteira habitasse aquele corpo. A porta fecha , consigo enxergar.Tinha um porte atlético, alto, vigoroso, semblante apreensivo e terno,cabelos dourados, ombros largos, seus verdes olhos pareciam mergulhar na minha alma, vasculhavam meus sentimentos, repreendiam,acariciavam e em alguns momentos arrancam sorrateiros, o medo do meu ser.                      
- Cada minuto a eternidade e os segundos nos tornam mais íntimos, um cheiro doce exalava do meu corpo, reajo  com espasmos delicados e tremores de incomprencíveil  excitação. Algo acontece, um estalo, um clique no mecanismo da angústia. Absurdamente os tremores não são mais sentidos. A sua simples presença imóvel impregna meu ser de paz. Estou incontestavelmente feliz. Recebo um olhar que mergulhava avidamente no meu próprio olhar, ele sabe tudo que acontece neste universo naufragado e secreto que me conduz, sabe até mesmo o que não sei,como se soubesse exatamente de onde eu vim e para onde eu vou.Seus labios tocam minhas duvidas. Através do seu olhar encontrei a chave para todas as perguntas sem respostas e para aquelas pelas quais jamais imaginei ter


-Eu também o sentia. Sim! Sim! Eu o senti e sem perceber o revi
inteiro, sabia de suas dores de suas perdas de suas culpas, fraquezas,
vitórias e feitos incríveis, também sabia da fome e força que em algum
tempo experimentara era como se sempre estivéssemos habitado um lugar mágico. Ao olhar, irremediavelmente  derretia todas minhas possiveis defesas, já não possuía a lucidez prática do momento. Uma
certeza começava a domar meu espírito selvagem.
O melhor lugar em meu mundo estava bem dentro daquele olhar,não iria me perder, estava a solta e entregue pois havia algo de  extraordinário e pleno neste encontro. Uma sensação oceânica inundava minha
alma. O fundamento de tudo estava para acontecer.
O que havia vivido perdido e sublimado agora tomava forma de um ser
pleno e sublime, nada mais existia alem de nós. Aquelas criaturas no
suplicio monstruoso sumiram e eu no torpor daquela presença as
esqueci.  Será esta a condição da felicidade, um momento de amnésia? O
movimento do elevador agora parecia imitar uma gôndola, deslizava
suavemente sobre um rio de prazeres suaves...
- Um estampido, o elevador pára e as luzes se apagam.
Algo de familiar me confortava, como uma voz interior que dizia:
“acredita no que és”. Mas eu acreditava no que sentia, era real demais
para ser ignorado, sentia a respiração de um desconhecido ao mesmo
tempo tão intimo quanto um Deus,sentia meu coração acelerando, sentia
desejo. Precisava do seu corpo tocando o meu e  apenas nosso olhar como detentor do tempo e do espaço; suspiros  continham todos os reforços positivos sobre o que
éramos e significávamos um para o outro. Já não sabia se estava
paralisada por forças sobrenaturais ou se ainda estava sendo o carrasco que
me impus pela vida a fora. Não ousava nem tentar um mínimo movimento
se quer, se o fizesse seria conduzida para longe deste encontro
sublime. A biologia de nossos corpos manifestava-se aquém de nossa
inércia.
- Sentia um prazeroso arrepio escalonando meu corpo, faziamos amor sem
um toque sequer. É cósmico, atemporal sobre-humano!! O prazer esta além
de qualquer consciência , o frenesi é absoluto e
intenso, tão real que nos torna febris, nossos corpos se tornam
incandescentes e então nos tocamos, nossas mentes sintonizam-se em
caricias, a sensação é tão apoteótica que tocamos a morte num gozo
místico, entre espasmos e suspiros.
- E ela, a temerosa e implacável morte , apresenta-se diante das chamas
que agora formam um ser único flamejante.
Sorrimos diante desta realidade mortal da finitude humana, pois já não nos
assusta mais. Tornamo-nos  Semi-Deuses a caminho da imortalidade. O gozo nos escapa de forma
imperiosa entre tremores e suspiros, um cheiro agridoce exala de nossa
mistura até perder os sentidos..
-Quando recobrei a consciência, o vi mover-se em direção a porta, antes de desaparecer na luz, olhou meu corpo em extase e disse:
- Agora já sabes em que nível pode me encontrar, estarei sempre
aqui, só você pode me encontrar só você pode abrir este portal é em meus braços o teu lugar. Sempre
aqui, não esqueças jamais, deste poder que te dou.
 A luz invadiu o ambiente enquanto a sombra saia e a porta se fechava.

Não sei por quanto tempo fiquei em êxtase, logo me percebi atordoada,percebia que estava só,
sem saber o que era real, a única certeza encontrada era que estava nua, com o corpo lavado de suor e a presença de sêmen escorrendo de minhas entranhas denunciavam a verdade.
-O elevador esta em pleno movimento. Com dificuldade consigo me vestir.
Na decida observo que as salas de tortura já não existem estão vazias.

Procuro ansiosamente a luz que ofusca e cria sombra no azul.

-Mais cinco andares ,a velocidade diminui. Expectativa: "a porta vai abrir”.
Um zunido acompanhado de um estrondo. Percebo que o elevador está
girando; ruma para um novo sentido, uma leve inclinação, então uma
queda, novamente uma força me mantém em um ponto neutro no
centro do elevador. Estou flutuando.
Ensaio um grito movendo com muito esforço os lábios,  a voz sai muito
fraca ecoando para dentro da garganta. O elevador gira, em torno de si
mesmo muitas vezes, zunidos, recomeça a descida em
diagonal.
Volto a espiar pela pequena janelinha, vejo novos penitentes,não
estão sobre tortura... parecem introspectivos. Não estão presos, já
não são grades o que os mantém contidos. Podia ver seus olhos fundos,
como se a dor enfim lhes instaurasse a consciência da vida. O que para
alguns seria mais que a eternidade, para aqueles eram segundos de uma
nova possibilidade. Percebo então que o maior castigo que lhes fora
infligido não advinha das torturas  e penitências, nem mesmo da inviabilidade 
de arbitrar a vingança. Era a impossibilidade de
existir que os machucava, pois em suas almas extinguira-se o lugar
onde habita a humanidade.
Em  ínfima possibilidade, aspiram a exclusao de suas  perversões apartir dai um ressurgir através da alma em uma espécie de espelho
refratário de si mesmos, onde conseguem adquirir a noção do outro como
sendo parte sua, e dali sentir o prazer de zelar pela vida.
O purgatório, visivelmente tornava tangível o existir e um ser em
evolução surgia. As estruturas corrompidas pela cultura estavam
anuladas.No andar seguinte a sala  denunciava ausência,simbolizando
 aqueles  que não suportaram a queda.
- Um mundo de tempo transcorreu entre minhas percepções e a parada
abrupta do elevador.
-As paredes se desfazem como pó ao vento e a luz invade por todos os
lados, Cega vejo que a luz não é tão suportável quanto a escuridão.
Protejo os olhos. A base do elevador se modifica, parecendo uma 
plataforma voadora. Nada vejo, mas posso sentir o vento, então a
luminosidade vai se tornando aceitável; minhas pupilas buscam pontos
de sombra onde a visão possa se apoiar.
Nada havia ali além de um jardim lamacento, Impossível caminhar nele,
percebo a passagem de algumas pessoas que simplesmente ignoram minha
presença. Algumas deslizavam penduradas em uma espécie de cabo
suspenso, parecem pássaros.
Era um mundo de trabalhadores que cultivavam uvas, elas brotavam por
todos os cantos.
Um destes cultivadores viu o quanto eu estava amedrontada.
Diz:
-Minha Senhora, que seu olhar seja bem vindo sobre o jardim das uvas
evolutivas, aqui fermentamos seus gomos para produzir néctar ao mundo.
Não há como escapar, mas tu só vieste como um veiculo temporário para
nos entregar a ceifadeira incansável que lhe habita o ser, irei
exorcizá-la até que venha para nós . Peço que não resista ao
processo sob pena de não sobreviver.
-Olho ao meu lado, mas não vejo ninguém além de mim. Outra onda gelada
percorre meu corpo e diz: 
 -Todas as partes deste universo que te forma como mulher pertencem
às relações que tens com o mundo fora daqui, apenas uma delas deve ficar,
a  que  faz ceifar a vida, esta nos pertence ! - há muito trabalho...
-Sorrindo estica sua mão em direção ao meu coração, sinto uma onda de
energia, e uma sensação de que algo me está sendo extirpado, uma luz
vermelha sai do meu peito, como em um filme
fantasmagórico vejo da luz a forma viva em um ser, identifico esta forma como a minha própria imagem refletida em um
espelho m'agico.
Um desdobramento do meu eu fora de mim.
Ela, meu outro eu, estava viva! Nesta observação eu estava extasiada.
Parecia resignada como se soubesse da importância de estar alia e o
que lhe esperava. Tive muito medo de  que esta resignação me
invadisse.
 -Nos braços do Cultivador silenciosamente sou conduzida até o
elevador. Em meu ouvido o escuto sussurrar :"Para nós  há uvas, para ti há terra e
sementes. Deves Cultiva-la."
Programou o elevador numa velocidade acima do normal, as portas se
fecham , num instante  acordo nos braços de ZEUS.


Alba Regina Bonotto